Quarta-feira, 14h. Sala de guerra do time de produto. O CTO abre o Jira, mostra o backlog e diz: "Temos 247 itens aqui. Mas 83% dependem de mexer no core. E ninguém quer mexer no core." Silencio. Todo mundo sabe do que ele esta falando. O sistema que processa 47% do faturamento da empresa roda numa versao de framework que parou de receber suporte em 2019.
A documentacao? Parcial. O único engenheiro que entendia a logica de negocios embutida naquele código saiu ha 11 meses. E a frase que ecoa nos corredores e sempre a mesma: "Se funciona, não mexe."
Funciona. Ate que para de funcionar.
O custo invisivel de não mexer
Divida tecnica não aparece no balanco. Não tem linha no DRE. Mas ela cobra. Todo mes, sem falta.
Numa distribuidora de energia que acompanhamos, o sistema legado de billing levava 6h42 para processar a fatura mensal de 23 mil clientes. O time de TI tinha 4 pessoas dedicadas exclusivamente a "manter a maquina rodando". Custo anual só de manutencao: R$137K em horas tecnicas, fora o licenciamento de um middleware que ninguém mais fabricava. Cada nova regra de negocio (desconto por faixa, tarifa social, bandeira tarifaria) levava entre 45 e 60 dias para entrar em produção. Os concorrentes faziam em 9.
Enquanto isso, o comercial pedia integração com o app de autoatendimento. O financeiro queria relatório em tempo real. E o legado seguia la, gordo, lento, intocavel. Uma fundacao rachada que todo mundo finge que aguenta mais um andar.
O legado não quebra de uma vez. Ele vai ficando mais caro, mais lento e mais arriscado, até que qualquer mudanca vira uma operação de guerra.
A armadilha do "reescreve tudo"
Quando a dor fica insuportavel, a tentacao e radical: "Vamos jogar fora e fazer do zero." Parece lógico. Raramente funciona.
Reescrever um sistema inteiro e como demolir um predio com gente morando dentro. Você precisa manter a operação rodando enquanto reconstroi. Precisa migrar dados que ninguém sabe exatamente de onde vem. Precisa replicar regras de negocio que estao enterradas em stored procedures de 2014, sem documentacao, sem teste automatizado, sem ninguém que lembre por que aquele IF existe.
Um banco digital para PMEs tentou essa abordagem. Projeto estimado em 8 meses. Entregou em 22. Custou 3,4x o orcamento original. E no dia do go-live, descobriram que uma regra de conciliacao que o sistema antigo fazia (e ninguém tinha mapeado) gerou R$890K de divergencia em 72 horas.
O problema não e a vontade de modernizar. O problema e modernizar sem mapa.
Reescrever tudo e a segunda decisão mais cara em tecnologia. A primeira e não fazer nada.
Mapear, isolar, evoluir
Existe um caminho entre o "nao mexe" e o "reescreve tudo". Ele passa por três movimentos (nao sao fases sequenciais, sao camadas que se sobrepoem).
Mapear o que importa. Nem todo legado e igual. Tem o legado que processa, o que armazena, o que calcula e o que exibe. Antes de decidir qualquer coisa, você precisa saber: quais modulos carregam logica de negocio critica? Quais sao apenas interface? Onde estao as dependências mais perigosas? Num cliente de meios de pagamento, descobrimos que 71% do código do sistema core era dead code. Nunca executava. O sistema real era menor do que todo mundo achava.
Isolar o nucleo. O segundo movimento e criar uma camada de isolamento entre o legado e o mundo novo. APIs, filas de mensagem, camadas de traducao. Você não precisa matar o legado. Precisa impedir que ele contamine tudo ao redor. Pense numa parede corta-fogo: o incendio pode existir, mas não se espalha. Isso permite que você construa coisas novas sem depender da velocidade (ou da fragilidade) do sistema antigo.
Evoluir por fatias. Depois que o mapa esta feito e o nucleo esta isolado, você começa a substituir pedacos. Um modulo por vez. Comecando pelo que gera mais dor ou mais risco. Sem big bang, sem go-live de fim de semana rezando para dar certo. Cada fatia migrada e testada, validada e colocada em produção antes de comecar a proxima.
Numa rede de postos que operava com um ERP de 2011 (o ERP que virou prisao, como o gerente de TI chamava), migramos o modulo de precificacao em 19 dias. O resto do ERP continuou rodando. Mas o comercial ganhou autonomia para ajustar preco por bandeira, por regiao, em tempo real. O impacto na margem apareceu no mês seguinte: +R$84K.
A integração que deveria levar 2 semanas
Toda empresa que tem legado conhece essa historia. "Precisamos integrar o sistema X com o sistema Y. A API esta pronta. Duas semanas, no maximo." Seis meses depois, a integração ainda não esta em produção.
Isso acontece porque a API que prometeram e nunca entregaram e um sintoma, não a doenca. A doenca e a falta de contrato claro entre sistemas. Quem e o dono do dado? Qual e a fonte de verdade? O que acontece quando um sistema manda um registro que o outro não reconhece? Quem monitora? Quem e acordado as 3h da manha quando a fila entope?
Integracao sem governança e um cano furado conectando dois reservatorios. A agua passa, mas você perde 34% no caminho e não sabe onde.
Seu sistema legado esta travando o crescimento?
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Modernizar legado não e um projeto de tecnologia. E um projeto de negocio com execução tecnica. O CEO precisa entender o risco de não agir. O CTO precisa de um plano que caiba na realidade (time, budget, operação rodando). E o time precisa de vitorias visiveis nas primeiras semanas, senao a energia morre antes do resultado aparecer.
A abordagem que funciona não começa por ferramenta nova ou cloud migration. Comeca por uma pergunta simples: qual e o pior gargalo que o legado causa hoje no negocio? Não na TI. No negocio. Se você responde isso com clareza, o roadmap se desenha quase sozinho.
A fundacao não precisa ser nova. Precisa ser solida o suficiente para aguentar o que vem a seguir.
Menos demolir, mais reforcar.
Qual legado esta travando a sua operação hoje?
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Marcelo Soares
Arquitetura e Tecnologia · Xpert V30
Tecnologia, inovacao e digital. Meios de pagamento, fidelidade e incentivo. Banco digital PMEs, Banco Postal, Premmia, KMV, Abastece Ai, Ekko.
