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Gestao

Tecnologia que o negocio entende e tecnologia que roda

Marcelo Soares | Arquitetura e Tecnologia | 7 min de leitura

Segunda-feira, 10h. Sala executiva, andar 14. O CEO olha para o slide do roadmap de tecnologia e diz: "Eu não entendo o que esta escrito aqui. O que e 'refatorar o microsservico de orchestration layer'? Isso gera receita? Reduz custo? Resolve o problema do cliente?" O CTO respira fundo. Ele sabe que o projeto e critico. Mas não consegue explicar por que, não na lingua que o CEO fala.

Essa cena se repete em 62% das empresas de medio porte que diagnosticamos. A tecnologia constroi uma coisa. O negocio precisa de outra. E no meio do caminho, um gap que ninguém nomeia vai comendo margem, tempo e confianca.

O problema não e técnico

O CTO medio no Brasil e competente. Conhece arquitetura, sabe montar time, entende de cloud, seguranca, dados. O problema não e falta de conhecimento técnico. O problema e de traducao.

Quando a TI apresenta um roadmap cheio de termos como "debito técnico", "observabilidade", "event-driven architecture", o CEO ouve ruido. Não porque seja ignorante. Porque a linguagem não conecta com as perguntas que ele precisa responder: como isso afeta receita? Quanto custa se não fizermos? Quando o cliente vai sentir a diferenca?

Numa fintech de meios de pagamento, acompanhamos um caso clássico. O time de engenharia passou 4 meses refatorando a camada de autenticacao. Projeto tecnicamente impecavel. Reducao de latencia de 340ms para 87ms. Seguranca reforçada. O problema: ninguém do comercial sabia que isso tinha acontecido. Nenhuma feature virada para o cliente foi entregue nesse periodo. O board perguntou o que a TI fez no trimestre. A resposta honesta era "melhoramos muito o alicerce". A resposta que o board ouviu foi "nada visivel".

Se o negocio não entende o que a tecnologia esta fazendo, a tecnologia perde funding. E quando perde funding, perde gente. E quando perde gente, perde capacidade de entregar.

A reunião que separa dois mundos

Existe um ritual que revela o tamanho do gap. A reunião de priorizacao.

De um lado, o time de produto e tecnologia com uma lista de 53 epicos no backlog. Do outro, o comercial e o operacional com 7 dores urgentes que os clientes relatam toda semana. As duas listas quase nunca se cruzam.

O comercial pede "um botao para o cliente renegociar a fatura pelo app". A TI responde que antes precisa migrar o modulo de billing para a nova arquitetura, porque o sistema atual não suporta chamadas assincronas. O comercial não entende o que "chamadas assincronas" tem a ver com um botao. A TI não entende por que o comercial acha que "e só um botao". E a conversa trava.

Eu já vi essa reunião durar 2h47 sem uma única decisão. Todo mundo saiu frustrado. O backlog continuou igual. O cliente continuou ligando para o SAC.

Quando a TI fala em camadas e o negocio fala em dor do cliente, ninguém esta errado. Mas ninguém esta se entendendo.

O papel do tradutor

Toda empresa que funciona bem na intersecao entre tecnologia e negocio tem, explicita ou implicitamente, um tradutor. Alguem que faz o CEO entender tecnologia sem precisar virar técnico. E que faz o time de engenharia entender o negocio sem precisar virar vendedor.

Esse papel não e de um cargo específico. As vezes e o próprio CTO, quando consegue sair do operacional e falar a lingua do resultado. As vezes e um product manager senior. As vezes e um consultor externo que entra por 30 dias, mapeia os dois lados e constroi a ponte.

O tradutor faz quatro coisas:

Converte complexidade tecnica em impacto de negocio. "Refatorar o microsservico de billing" vira "reduzir o tempo de lancamento de nova regra tarifaria de 45 dias para 5". O CEO entende isso. Sabe calcular o valor disso.

Traz a dor do cliente para dentro do backlog. Não como "feature request", mas como problema com número. "312 chamados por mês sobre renegociacao de fatura. Custo de atendimento: R$47K/mes. Churn correlacionado: 8,3%."

Negocia sequenciamento sem politica. A priorizacao deixa de ser "quem grita mais alto" e passa a ser "qual problema custa mais caro por semana sem solução".

Faz o progresso técnico visivel. Se a TI passou o trimestre melhorando infraestrutura, o tradutor mostra: "O sistema agora aguenta 4x mais transacoes por segundo. Isso significa que a Black Friday não vai derrubar o checkout como aconteceu em novembro passado, quando perdemos R$230K em 4 horas."

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O roadmap que o CEO le

A maioria dos roadmaps de tecnologia e ilegivel para quem não e de tecnologia. Epicos com nomes internos, dependências tecnicas, estimativas em story points. O CEO olha aquilo e não sabe onde esta o dinheiro.

Um roadmap que funciona para os dois lados tem cinco elementos:

Problema de negocio no titulo. Não "Migrar billing para event-driven". Sim "Permitir lancamento de nova regra tarifaria em 5 dias (hoje leva 45)".

Custo da inacao. O que acontece se não fizermos isso nos próximos 90 dias? Se a resposta for "nada muda", esse item não devia estar no topo.

Entrega intermediaria visivel. Ninguem quer esperar 6 meses pelo big bang. O roadmap precisa mostrar o que muda em 30, 60 e 90 dias. Mesmo que seja parcial.

Metrica de sucesso que o comercial entende. Não "reducao de latencia p99". Sim "checkout completo em menos de 2 segundos para 97% dos usuarios".

Dono com nome e sobrenome. Não "time de plataforma". Sim "Ana Claudia, tech lead, com checkpoint toda terca as 9h".

Numa rede de fidelidade, reescrevemos o roadmap nesse formato. O mesmo conjunto de projetos. As mesmas prioridades tecnicas. Mas traduzido. O CEO aprovou o budget em 11 dias. O ciclo anterior, com o roadmap técnico, tinha levado 4 meses de idas e vindas sem aprovacao.

Tecnologia que roda e tecnologia que o negocio defende

O maior risco de um time de tecnologia não e falhar na entrega. E entregar certo e ninguém perceber. Quando o negocio não entende o valor do que a TI faz, a TI vira centro de custo. E centro de custo e o primeiro lugar onde o corte chega.

A tecnologia que roda de verdade não e a mais sofisticada. E a que o negocio entende, defende e usa. Quando o diretor comercial vai para a reunião de board e diz "a TI nos entregou X e isso gerou Y de impacto", a TI deixa de ser custo e vira investimento.

Fazer o CEO entender tecnologia não e simplificar demais. Não e esconder complexidade. E traduzir complexidade em consequência. Em risco, em custo, em oportunidade, em tempo.

Tecnologia boa e a que ganha pista.

Seu roadmap de tecnologia fala a lingua do negocio?

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Marcelo Soares

Marcelo Soares

Arquitetura e Tecnologia · Xpert V30

Tecnologia, inovacao e digital. Meios de pagamento, fidelidade e incentivo. Banco digital PMEs, Banco Postal, Premmia, KMV, Abastece Ai, Ekko.

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